O que são
Os transtornos do neurodesenvolvimento formam um grupo de condições que surgem no desenvolvimento, em geral na infância, e se relacionam ao funcionamento do cérebro em áreas como atenção, comunicação, aprendizado e controle de movimentos. Não são resultado de falta de esforço, de educação ou de caráter.
Os manuais diagnósticos atuais incluem nesse grupo, entre outros:
- o Transtorno do Espectro Autista (TEA), com diferenças na comunicação e na interação social e padrões mais repetitivos ou restritos de comportamento, interesses e sensibilidade sensorial (leia sobre TEA em adultos);
- o TDAH, um padrão persistente de desatenção, hiperatividade e impulsividade que atrapalha a vida (leia sobre TDAH em adultos);
- os transtornos específicos de aprendizagem, como a dislexia, com dificuldades persistentes na leitura, na escrita ou na matemática;
- os tiques e a síndrome de Tourette, além de outros quadros da comunicação e da coordenação motora.
Por que tanta gente descobre só na vida adulta
Quando os sinais eram sutis, ou foram compensados por inteligência, esforço ou apoio da família, a condição pode ter passado despercebida na infância. Na vida adulta as exigências crescem (trabalho, estudos, casa, relacionamentos, autonomia) e os recursos de compensação deixam de dar conta. É frequente a pessoa chegar à terapia com ansiedade, cansaço e autocobrança, e só depois surgir a hipótese de uma condição do neurodesenvolvimento.
O que pode chamar a atenção
Dificuldade persistente de organizar tempo e tarefas, apesar do esforço. Cansaço enorme depois de interações sociais ou em ambientes barulhentos. Dificuldades parecidas desde a infância ou a adolescência. A sensação de estar sempre atrasado em relação aos outros. Ansiedade e esgotamento que parecem vir de tentar corresponder a expectativas que não combinam com o seu jeito de funcionar.
Isso não basta para um diagnóstico. Ansiedade, depressão, privação de sono e estresse causam sintomas parecidos, e por isso a avaliação precisa ser cuidadosa.
Diagnóstico e acompanhamento
O diagnóstico é clínico e deve ser feito por profissional habilitado, em geral com entrevista detalhada, histórico de vida e, quando indicado, avaliação psicológica ou neuropsicológica e avaliação médica. No meu atendimento o foco é a psicoterapia: entender como a condição, ou a suspeita dela, aparece no seu dia a dia e construir estratégias práticas para lidar com isso. Quando faz sentido, eu oriento onde buscar a avaliação diagnóstica.
O que a psicoterapia pode oferecer
Dá para compreender o seu funcionamento sem os rótulos de “preguiça” ou “falta de força de vontade”, montar estratégias de organização, planejamento e rotina que respeitem o seu jeito, trabalhar a ansiedade, a autocobrança e a baixa autoestima que costumam vir junto, praticar comunicação e lidar com demandas sociais e sensoriais, e decidir com calma se vale buscar uma avaliação.
Se você está em sofrimento muito intenso ou pensando em se machucar, não espere: ligue para o CVV (188, 24 horas, gratuito) ou para o SAMU (192), ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
Dificuldades de aprendizagem e dislexia em adultos
A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem que afeta a leitura e a escrita, apesar de inteligência e oportunidades adequadas. Em adultos, pode aparecer como leitura lenta e cansativa, dificuldade para escrever sem erros ortográficos, esforço grande para estudar textos longos ou evitar situações em que é preciso ler ou escrever em público. Muita gente aprendeu a compensar, e por isso só percebe o padrão na faculdade, na pós-graduação ou no trabalho.
A avaliação é feita por profissional habilitado, em geral com neuropsicologia. Na psicoterapia, o foco é o impacto emocional (vergonha, medo de errar, autocobrança), as estratégias de estudo e organização e o planejamento de apoios razoáveis nos estudos e no trabalho. Se você se identifica com isso, converse na primeira conversa, e eu oriento onde buscar avaliação.
Diagnóstico tardio
Receber um diagnóstico de neurodesenvolvimento na vida adulta costuma trazer sentimentos mistos: alívio por entender, tristeza pelo que poderia ter sido diferente, raiva de quem não percebeu antes, medo do que isso muda. Todos esses sentimentos são esperados. Ajuda lembrar que o diagnóstico não muda quem você é, apenas dá um nome e um caminho para o que você já vivia.
O acompanhamento psicológico pode apoiar esse processo: reler a própria história com mais gentileza, ajustar rotina e expectativas, decidir a quem contar e como, e trabalhar a ansiedade e o esgotamento que costumam vir de anos de adaptação. Para detalhes sobre cada condição, leia TDAH em adultos e autismo (TEA) em adultos.
Perguntas frequentes
Neurodesenvolvimento é a mesma coisa que doença mental?
São grupos diferentes. As condições do neurodesenvolvimento começam cedo e fazem parte de como o cérebro funciona. Elas podem coexistir com ansiedade, depressão e outras dificuldades.
Dá para ter TDAH ou TEA e só descobrir adulto?
Sim, é bastante comum, principalmente quando os sinais eram sutis ou foram compensados com muito esforço.
Você faz diagnóstico?
No meu atendimento o foco é a psicoterapia. O diagnóstico é feito por profissional habilitado, depois de avaliação. Quando fizer sentido, eu oriento onde buscá-la.
A terapia substitui o acompanhamento médico?
Não. Em alguns casos o tratamento é combinado, e decisões sobre medicamentos são sempre do médico.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação ou atendimento psicológico individual.